Apropriação Tecnológica no Quilombo do Curiaú

Primeiro dia do encontro

Sol forte, calor úmido e o canto dos DSC_0213pássaros que rondavam a hortinha medicinal da escola José Bonifácio, no Quilombo do Curiaú, em Macapá, no Amapá, foi o cenário inicial do primeiro encontro do projeto Mídia dos Povos em 2016. O tema: apropriação tecnológica para rádio comunitárias e livres.  Os cerca de vinte inscritos, alguns moradores, outros vindos de outros estados, traziam muita curiosidade a respeito da dinâmica necessária para montar uma rádio na comunidade onde vivem, além da vontade de compartilhar suas próprias vivências.

A ideia do projeto é promover encontros dialógicos no sentido de não traçar distâncias e impor papéis marcados entre quem ensina e quem aprende. Por isso, todos os participantes selecionados tiveram a oportunidade de oferecer uma roda de conversa, oficina ou qualquer outro tipo de dinâmica para compartilhar seus conhecimentos. Da mesma forma, apesar de um objetivo final, que era a transmissão coletiva de um programa de rádio, a programação do encontro estava aberta a mudanças de acordo com as necessidades geradas durante o processo.

No primeiro dia foram realizadas dinâmicas para que todos se conhecessem melhor. Depois de uma conversa em pares, cada par se apresentou como se fosse o outro que acabou de conhecer. Afrouxando a timidez dos primeiros minutos, seguimos como uma breve explanação do projeto e espaço para tirar dúvidas a respeito do que se seguiria. Como o tema norteador do encontro era apropriação tecnológica, havia grande expectativa a respeito da construção de um mini-transmissor de rádio, oficina que seria facilitada por Sérgio Luis, mais conhecido como Serginho, integrante das rádios Xibé e Voz da Ilha, em Tefé no Amazonas.

Essa proposta nos trouxe o primeiro desafio: todo material trazido por Serginho havia sido barrado pela Polícia Federal já no embarque no aeroporto de Tefé. Foi assim que ele, junto do produtor local do encontro, João Ataíde, tiveram que se aventurar pelas lojas de material eletrônico de Macapá. A garimpagem foi árdua, mas um encontro fortuito possibilitou a montagem do mini-transmissor e trouxe a parceria de Morais, técnico em eletrônica que acabou por formar uma parceria com o grupo.

Um dos participantes vindo do Rio de Janeiro, Thiago Novaes, que há anos atua junto de um coletivo de rádio livre, se propôs a falar sobre a história do rádio. Thiago destacou etapas desde a invenção do mesmo, passando pelo poder indiscutível como instrumento de guerra (nazismo), até o controle do Estado. Comentou sobre a Declaração dos Direitos Humanos e Pacto de San Jose da Costa Rica e a contradição do estado brasileiro em ser signatário destes documentos mundiais e coibir e manter o controle do uso do espectro em relação à população.

curiaú-31A coordenadora pedagógica do projeto que atualmente mora em Parnaíba, no Piauí, Ligia Apel, nos trouxe uma reflexão acerca da conceituação da comunicação. Ela destacou a importância de superarmos o conceito linear que separa emissores de receptores para um entendimento circular da comunicação, onde as mensagens não circulam em apenas um sentido, tornando todos os envolvidos receptores e emissores.

O dia se encerrou com uma oficina facilitada por João Ataíde, que abordou a importânciaDSCN0088da comunicação comunitária para políticas afirmativas, principalmente na perspectiva da luta por igualdade racial. Ele também apresentou um breve roteiro de programa para que os participantes pudessem esboçar seus programas, em grupos, a serem apresentados no final do encontro, durante uma transmissão coletiva

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Segundo dia do encontro

curiaú-1O segundo de dia em Macapá foi iniciado com uma visita ao Marco Zero, um monumento que marca a passagem da linha do equador pela cidade, único local do Brasil atravessado por essa linha. Em seguida, o grupo voltou a ser reunir na escola do quilombo Curiaú onde o dia foi dedicado as apresentações das rodas de conversar propostas e apresentadas pelos participantes. Quem iniciou o debate foi Joseane Calazans que falou sobre a origem e história da comunidade de Mazagão onde nasceu; Eduardo Enrique, que veio dos arredores de Santarém, da cidade de Mojuí dos Campos, no Pará, compartilhou suas experiências sobre rádio comunitária, rádio poste e cultura nordestina; A jovem Luiza Maria de Tefé, no Amazonas nos apresentou o projeto que realiza com mais quatro amigas da escola, o Programa Club Five iniciado em um projeto realizado nas escolas chamado Comunicar para a vida. Hoje o programa tem um horário na grade de uma emissora de longo alcance na cidade; Isis Tatiane da Silva moradora do Quilombo do Curiaú falou sobre a importância da cultura e tradição de sua comunidade para manter viva a identidade local; Danilo José Martins Silva, também do Amapá e é presidente da comissão da verdade da escravidão negra da OAB/AP, abordou questões relacionadas ao negro e a lei penal; a também amapaense Rejane Soares abordou trouxe a discussão sobre a importância de entender e se apropriar dos mecanismos da comunicação de massa e de conquistar espaços na mídia comercial; Thiago Novaes ativista do Rio de Janeiro apresentou o conceito de rádios livres traçando suas diferenças e semelhanças com as rádios comunitárias; Bruno de Paula Santos da Silva, do Amapá encerrou o dia falando sobre as influências comerciais e econômicas da comunicação usada como canal de acesso em meio às complexidades regionais.

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Terceiro dia do encontro

curiaú-33Riane Nascimento trouxe em suas malas, desde de Salvador, seu material habitual de trabalho: diferentes tipos de gravadores e microfones, cabos e surpresas. Ela, que trabalha coma captação direta de som para cinema, se dispôs a dar uma oficina. Mas antes de ir para a técnica propôs uma sensibilização através de uma dinâmica de escuta: fechar os olhos para perceber todos os sons do ambiente passam despercebidos quando estamos envolvidos por outros afazeres.

Partindo para a técnica, foi possível fazer o manuseio dos equipamentos básicos necessário para a captação de som. Riane tem experiência dessa atividade para produtos audiovisuais, mas fez comparações com captação para rádio, entendendo que por esse meio as imagens são produzidas pelo mente do ouvinte.

O grupo seguiu para exercícios de captação de áudio realizando entrevistas, depoimentos e vinhetas dos programas elaborados no primeiro dia. curiaú-48Logo, Serginho dá início da oficina de construção de transmissores com a apresentação de suas experiências de estímulo a apropriação tecnológica na cidade de Tefé e em comunidades no estado do Amazonas. Fez um apanhado teórico da capacidade e peças que compõe um mini-transmissor.

Mas foi no espaço de Dona Rosa, responsável por alimentar todos os participantes durante os dias de encontro, que começou-se a mexer com soldas e diversas mini-peças eletrônicas, dando início a semeadura de rádios pelos quilombos do Macapá.

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Quarta dia de encontro

curiaú-78 Na manhã Thiago Novaes ofereceu uma oficina de edição de áudio com o software livre audacity e juntos todos começaram a edição dos materiais captados e gravados no dia anterior para a programação final.

Após o almoço realizamos uma roda de conversa sobre a formação de uma rede a partir destes encontros. Eduardo, participante de Mojuí dos Campos, desenhou em um cartaz o mapa parcial da Amazônia, destacando os municípios onde o Projeto vai atuar: Macapá, Santarém, Itaituba e Tefé. Foi traçado um barbante vermelho para destacar a abrangência da rede na Amazônia, o que deu visibilidade para o alcance da mesma e, com ela, a importância estratégica de alcançacuriaú-84r as diferentes distâncias da região norte.

Durante a conversa, participantes iniciaram espontaneamente uma avaliação geral do projeto, com críticas construtivas, sugestões de melhoria para o próximo encontro e destaque para os pontos positivos.

Assim, todos puderam retornar para a finalização dos mini-transmissores antes de encerrar o dia. Mulheres quilombolas se destacaram na tarefa e logo puderam anunciar serem as primeiras negras quilombolas a construírem mini-transmissores de rádio no Macapá.

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Quinto dia do encontro

O dia de encerramento foi um dia de festa. A inauguração da rádio “Vozes do Quilombo, transmitido na frequência 104,2 FM a partir de um mini-transmissor feito durante o encontro, se deu ao som de muito batuque e marabaixo, ritmos tradicionais dos quilombos locais. O programa foi iniciado após o almoço e reuniu uma diversidade de entrevistados e assuntos com a tônica nas questões raciais e de gênero, já que a grande maioria do grupo foi composto por mulheres negras.

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Para encerrar o encontro, embalados pela gengibirra e a voz dos cantos das mulheres e homens quilombolas (mistura tradicional de cachaça com gengibre) a apresentação do grupo de marabaixo do Quilombo do Maruanum seguido do Batuque, ritmo tradicional do quilombo anfitrião, fez com que todos seguissem rodando, dançando e se espalhando como as ondas rádio, enquanto a música durasse…

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